No Meu Sótão Mora Um Gato Preto

Do que não gosto

Não gosto de casas ocas. Não gosto de paredes vazias. Não gosto de janelas por abrir, portas sem varanda com vistas por descobrir.

Não gosto do barulho dos vizinhos. Não gosto do vento feroz. Gosto do cântico dos pássaros em fins de tarde de Verão. Gosto da cor das noites, do silêncio das estradas.

Não gosto de rostos sisudos. Não gosto de frases feitas. Gosto de sorrisos cúmplices, de amizades acabadas de fazer. Gosto de palavras soltas, de versos sem rima. 

Não gosto do vazio. Não gosto de folhas brancas. Gosto de livros velhos, de páginas amarelecidas. Gosto de álbuns de fotografias com negativos por revelar. 

Não gosto do aroma dos dias de hoje. Gosto do cheiro da infância, da casa dos avós, dos sótãos e dos quintais, dos gatos que já não estão.

Não gosto de memórias, não gosto de saudade. Não gosto de sonhos que não passam disso mesmo, não gosto de ilusões. 

Não gosto do mundo. Não gosto do que vejo, do que oiço, do que prevejo. Não gosto do que sinto.

Não gosto de não gostar. 

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