No Meu Sótão Mora Um Gato Preto

Viagem sem regresso

Parto na viagem de me esquecer
Liberto-me da minha realidade
Levo comigo o que restou do meu passado
Mergulho rumo à solidão que me pertence
Fujo em busca das asas que perdi
Disperso-me no desvario de não regressar
Ao longo desta caminhada corro veloz
Elevo-me em devaneios sublimes
Embalo no universo de voar...

23 de Abril de 2008

in Asas Perdidas

 

Houve alguém que apareceu no meu local de trabalho, num dia qualquer, alguém importante para o mundo das letras tamanho era o seu talento, mas muito mais importante para mim, demasiado até, como sempre fora, e me leu, deixando-me as seguintes palavras numa folha em branco:

 

'Comove-me a luz das pequenas coisas:

o reflexo dum rosto espelhado na água,

uma flor, humílima, descansando entre as páginas

dum livro jamais lido,

e, quente, a sublimação do silêncio.

Aqui estou, entre outras coisas tão simples como eu,

esperando o amor, a vida e a morte,

enquanto, à minha volta, as palavras rumorejam

no incêndio, transversal, da tua voz.'

30/05/2009

H.S. (1939-2018)

 

Ainda hoje guardo a folha em branco preenchida com as suas palavras escritas à mão, com esferográfica azul, e recordo o seu sorriso com ternura, ao entregar-me em silêncio aquela que seria a mais valiosa opinião sobre a minha escrita. 

Importante. Demasiado importante, a dele e a sua escrita.

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