
(imagem retirada de: google imagens)
Querido futuro,
Hoje pensei que viesses, de noite, como tantas outras vezes. Mas voltei a embrulhar-me em sonhos vãos, perdi-me na utopia do amanhã e esqueci-me que a fantasia não passa disso mesmo.
Foi-me destinado o desencontro, aquele entre ti e o meu passado e estou para aqui, sem conseguir dormir, perdida num momento (in)temporal. As noites são longas em pensamentos, provavelmente ilusórios, e eu continuo a ser assim, sempre serei, aquela eterna sonhadora que eleva o coração nas madrugadas. Por perto, há uma alma que vagueia através de todos os sentidos. Acho que pensa que vai conseguir alcançar-te, para se encontrar comigo. Pobre alma.
Sempre de noite, quando tudo se cala e a vida desmaia. Talvez porque os fantasmas também choram, meio loucos e solitários, quando a escuridão estremece as ruas e os atalhos. No intervalo, entre ti e o passado, onde os silêncios se juntam e as ruínas dos dias deixam de nos assombrar pelas desilusões que nos comeram a vivacidade do corpo. Deves pensar 'discurso incoerente, este; pobre coitada, enlouqueceu'. Ai se soubesses dos sonhos das almas. Têm a voz dos segredos e, em confissões murmurantes, evocam passados delirantes. Consegues ouvi-las?
E assim vão ficando em ti pedaços de mim e da alma que me segue, passo a passo. Uns retalhos aqui, outros ali e tudo se transforma em desalinho. O vazio toma posse de tudo e derruba as palavras, varre-as como o vento leva a cinza dos caminhos. Porque, afinal, tu não existes. Como poderias, se ainda não vieste?
Sinto-me acorrentada ao passado, dispersa no presente, à beira do teu abismo. Querido futuro, se calhar é melhor não chegares.