'Lembro-te como um barco à deriva no mar alto em noites de agonia, esqueço-me que há um fundo nas marés. Triste o pescador que já não volta, é como o amor que parte e não regressa, esconde-se nas areias que não secam. É frio este sentir, dormente como o vazio das veredas, solitário como o tempo nos desertos. Triste de quem ama e nunca chora.'
Sinto-me terrivelmente só mas tu preenches as minhas noites e dou comigo, perdida nos lençóis, a ver-te aparecer outra vez da janela que dá para a serra e de onde se avista o mar, mas quem está ali não és tu, não sou eu nem ninguém. 'Quero morrer', pensei, 'e levar comigo todos os sorrisos. As lágrimas, essas, podem ficar para regar todas as flores. As flores dos jardins das cidades, dos campos e aquelas que se escondem nas areias da praia, da nossa praia, e que são levadas pela ondulação a cada amanhecer. Que fique o mar bravio florido e que, em cada flor, fique marcado um pedaço de nós. Lá, onde o frio não se sente e o calor veste as almas ásperas pelo fim dos tempos, gastas pelas amarguras da terra. Benditos aqueles que ficaram no fundo dos oceanos, felizes os que moram nos corais'.
25 de Setembro de 2015