No Meu Sótão Mora Um Gato Preto

'Mea culpa'

 


Os nomes mencionados nesta história são fictícios. A história é apenas baseada em alguns e pequenos factos reais. A Laura sabe que escrevi esta história para publicar aqui. O Duarte não sabe que eu tenho um blog.


 


A minha amiga Laura perdeu um amigo a semana passada. Perdeu-o porque declarou-se, através daquela palavra que nunca se deve revelar a um homem que não corresponde com o mesmo sentimento. Muito menos declarar essa palavrinha especial a um amigo. O 'Amo-te', sabem?


Sei que esperou quase dois anos, sempre na esperança de ouvir da parte do Duarte a dita palavra, destruidora de qualquer amizade superficial. Sim, porque lá no fundo, a Laura era mais amiga do Duarte do que o Duarte da Laura. Isto porque ela sempre lhe demonstrou a amizade que nutria por ele, ao contrário dele, que só quando lhe era 'conveniente' telefonava ou mandava mensagens sem parar. A Laura, sempre preocupada, tinha a todo e qualquer momento uma palavra de carinho ou conforto para com ele. Se bem que estavam sempre a discutir por tudo e por nada, que até enervava. Uma amizade surreal, diga-se de passagem. Ou uma adoração mútua fora do vulgar, a meu ver. Porque os verdadeiros amigos não discutem assim.


Sabem o que é que eu acho? Que não valeu a pena um amor tão grande, sentido por uma só parte. Um amor pela metade, eu diria. E a razão é óbvia, pelo menos para mim que sei da história. Há muito tempo que se conheciam e há dois anos reencontraram-se, por mero acaso ou por força do destino, e começaram a comunicar-se por telemóvel  todos os dias e a toda a hora. Isto durante meses e meses. Mas nunca estavam juntos. Raramente ou nunca conversavam em presença física. Quando se encontravam, era um abracinho para aqui e umas piadinhas para ali, umas com e outras sem graça nenhuma. Depois, e porque estavam sempre a discutir, as mensagens passaram a ser só de vez em quando. A seguir, raramente ou nunca. E pronto, deu nisto.


A Laura é uma pessoa extremamente sincera e isso custou-lhe uma amizade. Porque, no final, mandou-lhe umas mensagens via mail um tanto ou quanto precipitadas e não sei se até um pouco ridículas no ponto de vista do Duarte. Isto, na tentativa de lutar pelo amor dele. Acontece que apanhou-o numa fase problemática e ele não aceitou as ditas mensagens tendo, inclusivamente, dito umas quantas coisas à Laura que a magoaram bastante. E por isso e por outras coisas que tais, deixaram de fazer parte da vida um do outro. Definitiva e estupidamente. Por uma palavra. Aquela. O 'amo-te'.


A Laura perdeu um amor impossível. O Duarte perdeu uma amiga. Porque, e digo-vos muito sinceramente, aquela amizade não era real, não existia. Não no verdadeiro sentido da palavra. Talvez fosse apenas uma ligação invulgarmente estranha. Pura fantasia da Laura.


Lamento muito por ela, porque é uma verdadeira amiga. Apesar de eu gostar do Duarte, não lamento por ele, porque ainda ontem me cruzei com sua excelência na rua e encontrava-se feliz da vida. Não me parece que a perda da Laura o tenha abalado. Não, aparentemente.


Não me esqueço da expressão que ela utilizou, quando finalizou este triste episódio:


 


- Mea culpa. Mea maxima culpa - disse, lavada em lágrimas.


 

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