(Imagem encontrada algures há muito tempo sem referenciação de autor. Foi imagem de cabeçalho deste blog. Adoro)
Arrumei
a ametista no fundo do baú guardado num canto da antiga sala de
costura. Encerrei um capítulo de memórias vãs na urgência de esquecer.
Fui em busca do meu nome e encontrei-o nas asas que perdi. Estavam
presas aos ramos da árvore que conforta o meu velho sótão, outrora
cinzento.
Pincelei as paredes de cor de rosa, o tecto, a janela, as
portas, os móveis antigos. Inventei o céu da mesma cor em seu redor e
voltei a voar.
O meu sótão é cor de rosa. Como são todos os meus sonhos.
__________ / /__________
M. esperou dois mil e sessenta e cinco dias por alguém que, afinal, não conhecia.
Foi
ao fundo do baú, guardado num canto da antiga sala de costura do velho
sótão, agarrou na ametista, saiu de casa e lançou-a ao vento. Pensa que
caiu ao rio e foi levada pelas tempestades. D. fora a maior (des)ilusão
da sua vida e M. não encontrara o lugar da felicidade.
Mudou de nome e
pintou o sótão de cinzento. Pincelou as paredes, o tecto, as portas, os
móveis antigos. Abriu a janela, viu o céu da mesma cor e não conseguiu
voar. As asas tinham voltado a prender-se aos ramos da árvore que
ensombrava o velho sótão, outrora cor de rosa.
Enquanto varria a
poeira do passado que estremeceu a sua vida, encontrou um gato preto
junto ao baú, que olhava para ela como quem pede carinho maternal. Pegou
nele ao colo, passeou com ele, comprou-lhe uma alcofa, educou-o e fez
dele sua companhia. Quem sabe não lhe daria sorte, em vez daquele azar
tão temido pelos supersticiosos mais convictos?
O nome do gato? Ainda
hoje não tem, não vá o destino pregar-lhe mais alguma partida. Afinal,
tudo tem a ver com nomes. M. chama-lhe, apenas, gato preto.
in "O Despertar dos Silêncios"
escrito em 05/05/2013 e alterado em 17/03/2017