Há pressa no quintal da casa da minha mãe.
As flores do canteiro teimam em desabrochar. A terra insiste em secar depois da rega invernosa. Na flor de laranjeira que brota, poisa uma abelha em busca de néctar. Há um aroma fresco espalhado no ar.
No varão, a roupa estendida esvoaça e enxuga ao sabor da aragem matinal. Abrem-se as janelas de par em par e afastam-se os cortinados para o sol entrar. Arrastam-se móveis, lavam-se paredes, mudam-se as cores do cenário do lar.
Os gatos vadios miam no telhado e lutam por um lugar quente.
Os velhinhos passeiam na avenida e sentam-se nos bancos do jardim das rosas. Enquanto recordam tempos de outrora, crianças brincam no parque e soltam gritos de alegria.
No final da tarde enchem-se as esplanadas, há conversas amenas e lançam-se sorrisos no ar. Preparam-se caminhadas, planeiam-se viagens, fazem-se as malas para passear.
Os patos chapinham nas águas do rio. Esperam pelo pão de quem se debruça para os alimentar.
Os namoros florescem, multiplicam-se os beijos, cresce a vontade de dar e receber.
À noite, trocam-se afectos na pérgula. É tempo de amar.
Cheira a lilases dentro da casa da minha mãe.
À porta, respiro a Primavera que nasce.
(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)