
(Palavras para uma imagem)
Queres saber uma coisa?
Queria pintar de arco íris a nossa infância. Vens comigo?
Vamos pincelar de azul o cinzento dos dias e transformar os pingos da chuva em gotas de prata.
Consegues avistar a floresta lá ao longe? Está pintada de verde e se subirmos à cabana feita de madeira que está na árvore que é só nossa conseguimos, lá do alto, sentir o cinzento das nuvens transformar-se em rosa e podemos ver pedaços de um sol que se retira para adormecer. Os pássaros estão escondidos pelo medo do tempo. Vamos ao seu encontro e pedir-lhes que nos ensinem a voar?
Sabes uma coisa? Gosto de estar aqui contigo. Tu, que tens os traços tão diferentes dos meus e que, ao mesmo tempo, és tão igual a mim.
Vamos lançar ao vento o guarda-chuva que nos ampara, tirar os chinelos dos pés e saltitar descalços por esta terra molhada que nos oferece um cheiro doce e alimenta os nossos sentidos?
Vens comigo sentir a chuva cair sobre a nossa pele? Parece água morna que vem do céu e nos ajuda a chapinhar nas poças do caminho que nos leva ao esconderijo que nos espera. De lá, conseguimos admirar o verde da erva que enfeita a berma da estrada.
Sabes? Aqui, não tenho frio e contigo não me sinto só. Um dia, encontrámo-nos e conhecemo-nos. Agora, damos as mãos todos os dias e brincamos juntos. Sabes que, à noitinha, consigo ver a lua espreitar por entre as nuvens que pintam o céu de branco? Não sentes o mesmo?
Aqui, neste lugar onde vivemos, misturam-se pedaços de cada ponto do mundo. Aqui, não existem diferenças, não há medos. Aqui, sente-se um cheiro a liberdade.
Queres saber uma coisa? A nossa cor de pele é tão diferente, mas as nossas almas são tão semelhantes. São cristalinas.
(Texto escrito para a Fábrica de Histórias)